Numa dessas madrugadas perdidas na noite, um rapaz
levanta-se de sua cama, deixa desacompanhada a namorada nua. Talvez tamanha
fosse a sede para fazê-lo levantar-se e deixar aquele calor, aquele frescor dos
cabelos, aquele corpo nu de sua menina. Por um momento meio bêbado de sono,
colocou os pés no chão, olhou o relógio que lhe informou sorrindo a hora. Era
tarde, tarde demais.
Caminhou passos calmos. A caminho da cozinha, uma
brisa soprava docemente sob seus cabelos. A janela estava aberta, esquecera-se
de fechar. Mas afinal, a paixão era tanta, que diante dos beijos e abraços da
menina, a janela aberta era a última coisa que passara em sua cabeça. Foi
fecha-la, por um momento debruçou-se e admirou a paisagem da noite. Tão
receptiva era a noite!
Ela clamava para que a admirassem, mas todos dormiam
e deixavam-na tão só. No entanto, lá estava o rapaz, encarando as estrelas e a
lua sorridente. Ah, a paz da noite, madrugada amiga! O jovem olhou as casas
vizinhas, tão quietas, imóveis sem vida. Era tudo tão tranquilo. Enquanto a
brisa refrescava seu rosto, seus olhos se perdiam no horizonte, sua mente
colocava-se a pensar.
O que havia de esperar do futuro? Quais seriam os
caminhos a serem percorridos? Estaria sozinho ou acompanhado? Pensou que
subiria na vida, se daria bem, promoções viriam, a proposta de noivado à
menina seria feita. Num instante tudo era tão belo! Um relâmpago clareou o
horizonte, os olhos se estremeceram. Fez o jovem se perguntar: e se não for
assim? Se não for tão fácil, se não for acompanhado? O medo gelou seu peito,
calou os sentimentos doces.
De repente o vento começou a uivar. A noite, amiga
dos solitários e pensantes, estava preocupada com aquele jovem. Tinha de
aconselha-lo! Logo a brisa invadia seu rosto, passava pelos ouvidos e sussurrava
baixinho:
“Jovem garoto, recebas
este conselho sincero dessa que agora admiras: apenas viva meu querido. Faça
com que o medo seja apenas a vírgula de suas frases, pois antes dos grandes
atos há sempre momentos de suspense, de meditação... de medo. Se for só,
procure companhia. Se for acompanhado, valorize quem segue ao teu lado.
Enquanto vos falo, há quem morra e quem nasça. Há quem vive e quem se cala.
Aproveite o conselho que eu, a noite, lhes dou. Sigo admirando-o daqui de cima,
meu querido.”
O tempo passou tão rápido, agora no horizonte a noite
se despedia cumprimentando o nascer cintilante do sol. O garoto sorriu já sem
medo, agradeceu a noite. Um abraço surpreso ganhou da garota que há pouco
despertara. Prometeu que faria valer o conselho de sua amiga. Amanheceu mais um
dia de tanto de sua vida, amanheceu assim, o primeiro dia de um novo ano.
Por: Fellipe Barreto
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