domingo, 18 de outubro de 2015

A santa ninfeta



Ela num grito acordou os vizinhos. Gritando pelo susto, pelo ato que assistira calada, presenciará quieta por alguns instantes antes do grito delator. Digo sem pesar meu querido leitor, ela observou atenta o marido querido atingindo o ápice do gozo junto a ninfeta, que a mulher por dó acolhera.

Houve ira nos minutos que se seguiram. Lembro agora como os minutos se passaram lentamente, intensamente lentamente. Coisas que só acontecem em momentos históricos, épicos: como o disparo contra JFK ou o sapato disparado contra o Bush, amigo meu.

O marido quis explicar-se, mas para a mulher que era puro pranto, a suspeita havia sido consumada naquela cama de casal, diante de seus olhos castanhos, agora jaz tristonhos. Logo não havia explicação, nem o papa nem o Presidente da República podiam justificar tamanha depravação no quarto do casal.

A mulher, pobre coitada, era cristã fervorosa. Acolhera a ninfeta, pobre menina, perdera papai e mamãe nos seus 17 anos. Órfã de papai e mamãe, perdera os queridos num acidente de carro. Fizera da menina uma noviça feliz, com cama e roupa lavada, tinha agora mãe e pai amorosos (o pai amoroso até demais).

Mas a ninfeta tinha um feitiço cravado no corpo: cheio de curvas em delícias pervertidas, seios noviços, a boca deliciosa desejando os lábios de todos do bairro. Ah, a boca! Querido leitor, a boca era uma depravação só! A mulher logo percebera os olhares do marido, mas afinal, não havia o que temer. A ninfeta era pura e inocente, diferente dos políticos não estava mergulhada na perdição da vida pecadora.

Mas agora estava comprovado. Selado e embrulhada pra presente: a filha adotada estava deitada nos braços de seu marido. O caos instalara-se diante dos olhos dela, pobre coitada! Por má sorte, ainda na hora do grito, veja leitor, despertara o coitado do velho vizinho! 

Por: Fellipe Barreto

E agora, querida?



E agora, querida? Agora que você se foi, o sofrimento que ti não tivera no momento final coube a mim neste instante, neste seguimento de dia sem ti. Não há manhãs em que eu não desperte sentindo falta: falta do teu corpo junto do meu na velha cama, falta do teu café perfeito, de sua atenção ao meu colesterol, dos remédios que esqueço de tomar. Querida você foi cedo e eu chegarei atrasado ao vosso encontro.

E agora, querida? Os filhos estão longe e eu estou tão sozinho. Quem vai reunir novamente a família nas tardes de domingo? Não tenho forças para tal, não tenho vosso carisma. Fui duro demais com eles, você foi um anjo em nossas vidas. Você foi amiga, eu fui carrasco. Tratei de exigir o melhor deles, e exigi de mim o mínimo de carinho aos meus herdeiros.

E agora, querida? Nossos netinhos perguntam sobre ti. “Vovô cadê a vó?” as lágrimas teimam e postam-se em meus olhos cansados, não consigo responder. Eles querem brincar, querem correr pela casa, querem comer seus doces! Tento ser carinhoso, mas acabo contando-lhes minhas histórias chatas, logo eles perdem a atenção e correm num pega-pega, pra mim intolerável.

E agora, querida? A mágoa que sinto em meu peito dói. Pois o que não lhe disse em vida, agora cala eternamente em meu coração.

Por: Fellipe Barreto

domingo, 4 de outubro de 2015

Sorriso sincero



Lá estava eu: sentado num banco na faculdade tentando ler um livro, mas confesso, por mais que me esforçasse, era difícil manter-me atento a cada novo parágrafo. Sei lá, há coisas que acontecem e simplesmente acabam com nosso dia. A vida fazia sentido, mas eis que surge alguém e puxa o gatilho: fala mal ou olha feio. Acalme-se leitor! Não levei tiro! Uffa. Pelo contrário, levei disparos daqueles olhares atentos, mas aborrecidos dos populares enquanto vinha para a facu no 7049. Aqueles olhares eram perversos, carregavam consigo toda a desaprovação, olhares raivosos a procura da presa, e eu era a presa: um gordinho que acabara de entrar no busão lotado pra ocupar mais espaço.

Desci do busão, continuou seguindo seu caminho o 7049 sem mim. Mas os olhares continuaram em minha mente, não somente o olhar, mas o rosto: uma cara cansada, com olheiras e uma careta estampada. Disse que desci do busão e logo me perdi. Desci, e encontrei um banco solitário amigo. Tentei ler, mas estava decepcionado por tudo aquilo. Os minutos foram se passando, notei que uma mãe e seu casal de filhos vinham em minha direção. Pensei de modo egoísta e estúpido: “essas crianças vão fazer um barulho do cacete, agora que não consigo ler mesmo!”, arrependo-me do que pensei.

Foquei no livro, nas linhas, nas frases e por fim nos parágrafos. Percebi um vulto vindo em minha direção: era o menino. Deveria ter seus 6 ou 7 anos de idade, moreno com o cabelo meio ruim, roupas simples. Parou diante de mim, olhei, ele deu um sorriso e saiu correndo. Leitor, o sorriso era o mais sincero dos sorrisos. O tipo de sorriso que gente grande não dá mais. Achei aquilo engraçado, e tentei ler mais um pouco. O menino saiu correndo brincando, dando berros de felicidade creio eu, depois voltou e parou em minha frente. Dessa vez fora mais longe. Ele acariciou meu rosto gordo, deu atenção mais à barba, depois colocou as mãos no rosto como se sentisse vergonha, deu uma risada e saiu novamente correndo.

Confesso que fiquei assustado, tremendamente assustado, não espera por essa. A mãe veio e disse: “desculpa moço, é que ele é autista, ele gosta de barba... e de óculos.” Disse a ela que tudo bem. O menino vive em seu próprio mundo, as coisas não devem ser boas para a mãe e o pai, deve ser difícil criar o filho assim, tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante. E perceba leitor, no mundo deste menino não há distinção de raça, cor, gordo, magro, bonito ou feio. O que para muitos olhares raivosos é feio, para um sorriso sincero é divino.

Isso fez meu dia melhorar muito. Achei legal escrever sobre isso.

Por: Fellipe Barreto