domingo, 4 de outubro de 2015

Sorriso sincero



Lá estava eu: sentado num banco na faculdade tentando ler um livro, mas confesso, por mais que me esforçasse, era difícil manter-me atento a cada novo parágrafo. Sei lá, há coisas que acontecem e simplesmente acabam com nosso dia. A vida fazia sentido, mas eis que surge alguém e puxa o gatilho: fala mal ou olha feio. Acalme-se leitor! Não levei tiro! Uffa. Pelo contrário, levei disparos daqueles olhares atentos, mas aborrecidos dos populares enquanto vinha para a facu no 7049. Aqueles olhares eram perversos, carregavam consigo toda a desaprovação, olhares raivosos a procura da presa, e eu era a presa: um gordinho que acabara de entrar no busão lotado pra ocupar mais espaço.

Desci do busão, continuou seguindo seu caminho o 7049 sem mim. Mas os olhares continuaram em minha mente, não somente o olhar, mas o rosto: uma cara cansada, com olheiras e uma careta estampada. Disse que desci do busão e logo me perdi. Desci, e encontrei um banco solitário amigo. Tentei ler, mas estava decepcionado por tudo aquilo. Os minutos foram se passando, notei que uma mãe e seu casal de filhos vinham em minha direção. Pensei de modo egoísta e estúpido: “essas crianças vão fazer um barulho do cacete, agora que não consigo ler mesmo!”, arrependo-me do que pensei.

Foquei no livro, nas linhas, nas frases e por fim nos parágrafos. Percebi um vulto vindo em minha direção: era o menino. Deveria ter seus 6 ou 7 anos de idade, moreno com o cabelo meio ruim, roupas simples. Parou diante de mim, olhei, ele deu um sorriso e saiu correndo. Leitor, o sorriso era o mais sincero dos sorrisos. O tipo de sorriso que gente grande não dá mais. Achei aquilo engraçado, e tentei ler mais um pouco. O menino saiu correndo brincando, dando berros de felicidade creio eu, depois voltou e parou em minha frente. Dessa vez fora mais longe. Ele acariciou meu rosto gordo, deu atenção mais à barba, depois colocou as mãos no rosto como se sentisse vergonha, deu uma risada e saiu novamente correndo.

Confesso que fiquei assustado, tremendamente assustado, não espera por essa. A mãe veio e disse: “desculpa moço, é que ele é autista, ele gosta de barba... e de óculos.” Disse a ela que tudo bem. O menino vive em seu próprio mundo, as coisas não devem ser boas para a mãe e o pai, deve ser difícil criar o filho assim, tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante. E perceba leitor, no mundo deste menino não há distinção de raça, cor, gordo, magro, bonito ou feio. O que para muitos olhares raivosos é feio, para um sorriso sincero é divino.

Isso fez meu dia melhorar muito. Achei legal escrever sobre isso.

Por: Fellipe Barreto 


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