Lá estava eu: sentado num banco
na faculdade tentando ler um livro, mas confesso, por mais que me esforçasse,
era difícil manter-me atento a cada novo parágrafo. Sei lá, há coisas que
acontecem e simplesmente acabam com nosso dia. A vida fazia sentido, mas eis
que surge alguém e puxa o gatilho: fala mal ou olha feio. Acalme-se leitor! Não
levei tiro! Uffa. Pelo contrário, levei disparos daqueles olhares atentos, mas
aborrecidos dos populares enquanto vinha para a facu no 7049. Aqueles olhares
eram perversos, carregavam consigo toda a desaprovação, olhares raivosos a
procura da presa, e eu era a presa: um gordinho que acabara de entrar no busão
lotado pra ocupar mais espaço.
Desci do busão, continuou seguindo
seu caminho o 7049 sem mim. Mas os olhares continuaram em minha mente, não
somente o olhar, mas o rosto: uma cara cansada, com olheiras e uma careta
estampada. Disse que desci do busão e logo me perdi. Desci, e encontrei um
banco solitário amigo. Tentei ler, mas estava decepcionado por tudo aquilo. Os
minutos foram se passando, notei que uma mãe e seu casal de filhos vinham em
minha direção. Pensei de modo egoísta e estúpido: “essas crianças vão fazer um
barulho do cacete, agora que não consigo ler mesmo!”, arrependo-me do que
pensei.
Foquei no livro, nas linhas, nas
frases e por fim nos parágrafos. Percebi um vulto vindo em minha direção: era o
menino. Deveria ter seus 6 ou 7 anos de idade, moreno com o cabelo meio ruim,
roupas simples. Parou diante de mim, olhei, ele deu um sorriso e saiu correndo.
Leitor, o sorriso era o mais sincero dos sorrisos. O tipo de sorriso que gente
grande não dá mais. Achei aquilo engraçado, e tentei ler mais um pouco. O
menino saiu correndo brincando, dando berros de felicidade creio eu, depois
voltou e parou em minha frente. Dessa vez fora mais longe. Ele acariciou meu
rosto gordo, deu atenção mais à barba, depois colocou as mãos no rosto como se
sentisse vergonha, deu uma risada e saiu novamente correndo.
Confesso que fiquei assustado,
tremendamente assustado, não espera por essa. A mãe veio e disse: “desculpa
moço, é que ele é autista, ele gosta de barba... e de óculos.” Disse a ela que
tudo bem. O menino vive em seu próprio mundo, as coisas não devem ser boas para
a mãe e o pai, deve ser difícil criar o filho assim, tão perto, mas ao mesmo
tempo tão distante. E perceba leitor, no mundo deste menino não há distinção de
raça, cor, gordo, magro, bonito ou feio. O que para muitos olhares raivosos é
feio, para um sorriso sincero é divino.
Isso fez meu dia melhorar muito.
Achei legal escrever sobre isso.
Por: Fellipe Barreto
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