Ele veio andando pela rua escura. Era madrugada, não
marquei a hora. A lua era testemunha de
seus passos, e as estrelas riam a cada tropeço. Bêbado? Sim, talvez, mas era
muito jovem para dedicar à bebida, ou mesmo às farras nas madrugadas adulteras.
Era conhecido naquele bairro. Nasceu e cresceu lá,
agora adulto comprou uma boa casa lá. Tinha fama de ser rapaz decente. De
família rica e tradicional, um tio era Prefeito e uns primos eram Deputados.
Papai era advogado e mamãe era escritora. Todo domingo iam à missa, sem falta.
Não disse o nome, corrijo-me: Rafael, era ele.
Fez de sua primeira namorada noiva, logo mais tarde,
esposa. Aninha, menina santíssima! Dona de uma doçura e delicadeza digna
da nobreza. A família de Rafael aprovou
a união de “boa”. Os pombinhos viviam grudados, toda tarde ficavam se
deliciando da brisa que vinha de frente a casa, conversando com os vizinhos e
admirando as crianças correndo, pulando corda e brincando de pega-pega. A vida
era de uma inocência desgraçada.
Mas agora quem o visse cambaleando sob o efeito da
cachaça e fúria humana, por certo,
jamais o reconheceria. Por culpa do emprego, vivia viajando acompanhando um dos
primos. De uns tempos pra cá, começou a receber telefonemas anônimos: “abre o
olho, corno manso!”. Recebeu emails com fotos comprovando os avisos. Iniciou-se
a paranoia dos males de corno, algo que mancharia sua reputação.
Chegou na porta de casa, subiu os degraus do portão.
Abriu a porta, tentando fazer o mínimo de barulho possível, calmamente, tirou
do bolso do paletó o revólver 38. Foi manso, “corno manso! Tu é corno Rafael!”,
dizia sua mente. Passou pela cozinha, foi ao segundo andar rumo ao quarto do
casal. Abriu a porta e pronto! Estava comprovado: Aninha sendo dominada nos
braços de outro homem. Sem pensar, quis explicação, deu dois tiros em cada um.
Viu a esposa agonizar afogando-se em seu próprio sangue. Por fim, tirou a
própria vida.
Assim termina a história de Rafael, o decente.
Por: Fellipe Barreto
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