sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O decente e a traição.



Ele veio andando pela rua escura. Era madrugada, não marquei a hora. A lua era testemunha  de seus passos, e as estrelas riam a cada tropeço. Bêbado? Sim, talvez, mas era muito jovem para dedicar à bebida, ou mesmo às farras nas madrugadas adulteras.
Era conhecido naquele bairro. Nasceu e cresceu lá, agora adulto comprou uma boa casa lá. Tinha fama de ser rapaz decente. De família rica e tradicional, um tio era Prefeito e uns primos eram Deputados. Papai era advogado e mamãe era escritora. Todo domingo iam à missa, sem falta. Não disse o nome, corrijo-me: Rafael, era ele.
Fez de sua primeira namorada noiva, logo mais tarde, esposa. Aninha, menina santíssima! Dona de uma doçura e delicadeza digna da  nobreza. A família de Rafael aprovou a união de “boa”. Os pombinhos viviam grudados, toda tarde ficavam se deliciando da brisa que vinha de frente a casa, conversando com os vizinhos e admirando as crianças correndo, pulando corda e brincando de pega-pega. A vida era de uma inocência desgraçada.
Mas agora quem o visse cambaleando sob o efeito da cachaça  e fúria humana, por certo, jamais o reconheceria. Por culpa do emprego, vivia viajando acompanhando um dos primos. De uns tempos pra cá, começou a receber telefonemas anônimos: “abre o olho, corno manso!”. Recebeu emails com fotos comprovando os avisos. Iniciou-se a paranoia dos males de corno, algo que mancharia sua reputação.
Chegou na porta de casa, subiu os degraus do portão. Abriu a porta, tentando fazer o mínimo de barulho possível, calmamente, tirou do bolso do paletó o revólver 38. Foi manso, “corno manso! Tu é corno Rafael!”, dizia sua mente. Passou pela cozinha, foi ao segundo andar rumo ao quarto do casal. Abriu a porta e pronto! Estava comprovado: Aninha sendo dominada nos braços de outro homem. Sem pensar, quis explicação, deu dois tiros em cada um. Viu a esposa agonizar afogando-se em seu próprio sangue. Por fim, tirou a própria vida.
Assim termina a história de Rafael, o decente. 

Por: Fellipe Barreto

Nenhum comentário:

Postar um comentário