Assim, deitou-se o filhinho. Mamãe leu uma historinha
fazendo ninar. O menino foi logo adormecendo, os olhos se fechando, o sono veio
assim. Calmamente, com a doce voz de mamãe no fundo, contando sobre um
imperador e sua imperatriz.
Mamãe se levantou. Foi até a sala, esperar pelo
marido que logo mais chegaria. Mas uma coisa era certa: neste momento ele
estava com a amante, uma menina com seus 23 anos, com a juventude a flor da
pele, com tudo em cima, sem filhos ou nem preocupações. A mulher, mãe de seu
filho, vivia numa desgraça sem tamanho. Era de uma tristeza só! Era humilhada
diariamente pelo marido, pasmem: tudo diante do filhinho!
Meia hora depois, o marido entrou fazendo explodir um
tremendo de um barulho na casa. Entrou com um charuto preso na boca, manchas de
batom em todo rosto e um mau-humor desgraçado. Disse: “Traga logo um copo de
whisky, mulher!” e mansamente ela caminhou até o bar, no canto da sala. O
marido, enquanto tirava os sapatos, não percebeu quando a mulher despejou um pó
suspeito na bebida derradeira.
“Aqui está, benzinho”, disse a mulher traída e
humilhada, com um sorriso doce no rosto, mas com ódio calado no peito. O marido
deu um gole profundo, num instante paralisou-se! Os pulmões foram logo ficando
sem ar e sem forças. Os olhos fixaram-se na mulher que ria. “Vadia”, sussurrou
baixo o marido, fechando os olhos. Pronto, lá se foi o marido! “Vai tarde,
escroto”, disse a mulher.
Alegremente foi até a cozinha, tirou da gaveta uma
carta sua, colocou sobre a mesa. Voltou à sala, sentou-se, fumou o charuto do
defunto e ficou a admirar o marido, agora meio pálido. Logo veio a tristeza,
veio então a tarefa difícil. Apagou o charuto na bochecha do marido,
“bastardo”, disse a dona de casa. Marchou até o quarto do filhinho, levando em
uma das mãos uma almofada.
Repousou por um instante ao lado de sua cria, admirou
por alguns segundos. Uma lágrima escorreu, sozinha. Não hesitou: sufocou a
pobre criança, não sentiu nada, nem resistiu, não tinha forças. Em seguida
chorou a morte do filho, com as mãos cobrindo o rosto, “me perdoe, me perdoe,
Senhor”. Ficou ali num pranto sem tamanho, o ursinho de pelúcia fora testemunha
e chorou junto dela.
No quarto do casal, pegou a pistola de seu pai, o
Coronel. Estourou os miolos, humilhados e vingados. Dias depois os vizinhos
estranharam o cheiro forte dos cadáveres, juntos mortos e família.
Fellipe Barreto
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