terça-feira, 31 de maio de 2016

Sentimental


Ela veio para mim como a noite vem para o dia. Veio bela como as flores que inundam a primavera. Toda sincera, em cada palavra doce que saia de sua boca, era única até no tom de sua voz. Fez-me diferente do que antes era. Conquistou-me no primeiro ato, no primeiro contato, no primeiro toque. Fez-me rei e eu lhe fiz rainha, fez-me de louco e eu lhe fiz rir.

Mas foi embora tão bela quanto veio. Entrou no carro, engatou a primeira e me deixou sozinho na calçada em frente ao nosso castelo. Por onde anda, não sei. Mas sempre me pergunto “como ela deve estar?”. Ela pertence ao mundo, como as estrelas pertencem ao espaço, como os pássaros pertencem ao céu.
Por: Fellipe Barreto

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Por onde anda?


Por onde anda aquela que nunca foi minha, mas que em meus sonhos me pertencia?

Angústia maldita esta, penso em coisas terríveis: “voltou-se aos braços daquele maldito revolucionário mortadela?”. Faço calar meus pensamentos, com auxílio daqueles comprimidos e cigarros, amigos poucos convencidos, tão amáveis, confesso que outro dia o cigarro que vinha em direção à boca minha perguntou sincero: “como vai seu dia?”, disse que ia sobrevivendo e o traguei sem dó ou piedade.

Por onde andará a moça dos cabelos encaracolados de outrora? Faço saber que em meus sonhos não mais a vejo, espero que esteja bem, feliz cercadas pelos outros amigos, mas se triste estiver, sem pensar, lhe entrego meus braços para lhe confortar num abraço sincero e cheio de pranto.

Deus ou qualquer outra força que tanto clamamos, diga-me com sinceridade como ela está, clamo para que deixe-me admirar aqueles olhos pelo menos mais uma vez,  aquele sorriso revolucionário e ouvir sua nobre voz chamando pelo meu nome.

Resta a mim, voltar à minha tarefa derradeira, cavar com uma colher de sopa o fundo do poço no qual me deparei.

Fellipe Barreto

terça-feira, 12 de abril de 2016

Decepcionante


A decepção que sinto agora, não é a mesma da primeira vez que lhe vi. Ah, é deveras pior, pois me aproximei novamente imaginando algo de novo,  desejando que algo de bom realmente fosse surgir de ti, mas a decepção fora tamanha, você é a mesma de antes, ou pior depois que bebi e fumei, você é nada de mais meu bem. Você é só uma, única com esse dom de ser decepcionante aos espectadores que anseiam algo de bom de ti, você é o nada diante de mim: o tudo.

O texto é pequeno, pois a pessoa não vale as linhas que teimo escrever, leitor.

Por: Fellipe Barreto

domingo, 10 de abril de 2016

Detesto


Me detesto, pois era muito criança quando lhe conheci. Acredita? Mas o tempo fez uso de seus trunfos e nos distanciou, dias, meses e anos. Diga-se que talvez tenha eu amadurecido, mas ainda sou criança e não sou para ti, adiante me peguei lhe relembrando na saudade, mergulhado nas bebidas, tentei afogar o desejo que tinha de lhe ver pelo menos uma última vez.

Levei socos e pontapés das outras, xinguei e me xingaram, pois nenhuma era assim como você. Vi nos ponteiros daquele relógio seu sorriso, vi naquela garrafa de pinga seus vexames, vi em mim a impotência de não tê-la em meus braços. A distância não foi o bastante para lhe afastar de meus pensamentos.

Hoje você volta. E ainda me detesto por não acreditar nisso.

Por: Fellipe Barreto.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O tudo e o nada


Ajoelha-te perante mim! Pois sou o tudo e o nada. Sou o além do infinito. Estou sempre sentado na mesa do bar comemorando minhas conquistas. Rodeado de amigos, rindo de qualquer coisa tola, sempre planejando o próximo passo. Sou grande, sou grandioso diante dos menores. Essa parte de mim é pequena, quase nunca vista.

Se aconchegue, me abrace. Me de seu ombro para confessar meus prantos. Sou o nada, diante do infinito. Sou finito, penso logo no fim. Estou sozinho, enquanto meus amigos comemoram. Sou apenas um, mas há duas partes dentro de mim, lutando entre si: o tudo e o nada.

Sou uma bipolaridade de emoções e sentimentos brigando entre si. Estou estarrecido, aguardando quem irá vencer.

Por: Fellipe Barreto

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Conselho para o futuro



Numa dessas madrugadas perdidas na noite, um rapaz levanta-se de sua cama, deixa desacompanhada a namorada nua. Talvez tamanha fosse a sede para fazê-lo levantar-se e deixar aquele calor, aquele frescor dos cabelos, aquele corpo nu de sua menina. Por um momento meio bêbado de sono, colocou os pés no chão, olhou o relógio que lhe informou sorrindo a hora. Era tarde, tarde demais.
Caminhou passos calmos. A caminho da cozinha, uma brisa soprava docemente sob seus cabelos. A janela estava aberta, esquecera-se de fechar. Mas afinal, a paixão era tanta, que diante dos beijos e abraços da menina, a janela aberta era a última coisa que passara em sua cabeça. Foi fecha-la, por um momento debruçou-se e admirou a paisagem da noite. Tão receptiva era a noite!
Ela clamava para que a admirassem, mas todos dormiam e deixavam-na tão só. No entanto, lá estava o rapaz, encarando as estrelas e a lua sorridente. Ah, a paz da noite, madrugada amiga! O jovem olhou as casas vizinhas, tão quietas, imóveis sem vida. Era tudo tão tranquilo. Enquanto a brisa refrescava seu rosto, seus olhos se perdiam no horizonte, sua mente colocava-se a pensar.
O que havia de esperar do futuro? Quais seriam os caminhos a serem percorridos? Estaria sozinho ou acompanhado? Pensou que subiria na vida, se daria bem, promoções viriam, a proposta de noivado à menina seria feita. Num instante tudo era tão belo! Um relâmpago clareou o horizonte, os olhos se estremeceram. Fez o jovem se perguntar: e se não for assim? Se não for tão fácil, se não for acompanhado? O medo gelou seu peito, calou os sentimentos doces.
De repente o vento começou a uivar. A noite, amiga dos solitários e pensantes, estava preocupada com aquele jovem. Tinha de aconselha-lo! Logo a brisa invadia seu rosto, passava pelos ouvidos e sussurrava baixinho: 
“Jovem garoto, recebas este conselho sincero dessa que agora admiras: apenas viva meu querido. Faça com que o medo seja apenas a vírgula de suas frases, pois antes dos grandes atos há sempre momentos de suspense, de meditação... de medo. Se for só, procure companhia. Se for acompanhado, valorize quem segue ao teu lado. Enquanto vos falo, há quem morra e quem nasça. Há quem vive e quem se cala. Aproveite o conselho que eu, a noite, lhes dou. Sigo admirando-o daqui de cima, meu querido.”
O tempo passou tão rápido, agora no horizonte a noite se despedia cumprimentando o nascer cintilante do sol. O garoto sorriu já sem medo, agradeceu a noite. Um abraço surpreso ganhou da garota que há pouco despertara. Prometeu que faria valer o conselho de sua amiga. Amanheceu mais um dia de tanto de sua vida, amanheceu assim, o primeiro dia de um novo ano. 
Por: Fellipe Barreto