quarta-feira, 8 de abril de 2015

A dama de preto




Lá vou eu tentar escrever algo sobre essa vilã da vida. A morte, tratada como inimiga final. Aquela que busca uma vítima fácil. Um tropeço e a queda de cabeça no meio fio, o gole da bebida que nunca tem fim ou a saída final do suicida romântico. 

Morte, o que afinal há de tão sombrio em ti? Somente a vítima sabe que ela vem. No instante final não vos engane, não vemos nossa vida passando como uma reprise de final de ano, e não pensamos nos entes queridos que deixaremos. Não, leitor ingênuo. 

Pensamos apenas nela, na inimiga. Engane-se leitor, ela não é um homem vestido num terno preto. Enganai-vos, leitor. A morte vem na figura feminina mais bela já vista em sua vida. A morte vem com a maior ternura do mundo e vos julga digno do descanso eterno. Quando ela vem os céus a anunciam. A escuridão invade nossa mente, os trovões tocam a música de despedida da vida. E ela chega, envolta em seu vestido negro, em uma das mãos leva a foice para ceifar a última gota de esperança que vos resta. Na outra leva uma rosa, ela vos presenteia com a mais bela flor vinda das profundezas da perdição. É romântica, sim. É romântica. 

Não se engane: ela é tímida, das mais tímidas que já vistes na vida. Ela vem e começa o flerte. O último, leitor. Seus olhos são azuis. Azuis que hipnotizam qualquer um. Do mais forte ao mais molenga dos homens. Sua pele é pálida, mas de uma palidez divina. Quem sabe o que ela diz nesse momento? Ninguém voltou para nos contar. Quem sabe recite um poema. Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e tantos outros. As opções são inimagináveis.  

Cativa a vítima ao ponto de chama-la para dançar. E começa a última dança. Uma valsa sombria da qual o final todos já sabem. Ela seduz com seu corpo esbelto. Corpo de brasileira bem feita. Se Deus é brasileiro, a morte deva ser brasileira. Por que não? Ela dança, a vítima a carrega em seus braços. Ali não existe a esposa, a namorada, ou a ficante da vida terrena. Nada ali mais importa. A vítima já esquece que vai para a eternidade. A morte, em sua ternura divina, o beija. 

Do beijo dado, ela toma seu último fôlego. Que bandida, seduz por tão pouco. Do encontro entre as duas bocas, a vítima se desfaz em luz a caminho da eternidade. A morte fica, mas que desfeita com aquele corpo belo. E se vai a procura do próximo amante. Um pai de família, um padre, um pastor, um solitário. Não importa quem, ela vem carente de carinho e de toque. A morte a mais linda que virá para todos. 

Por: Fellipe de Sousa Barreto

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