Lá
vou eu tentar escrever algo sobre essa vilã da vida. A morte, tratada como
inimiga final. Aquela que busca uma vítima fácil. Um tropeço e a queda de
cabeça no meio fio, o gole da bebida que nunca tem fim ou a saída final do
suicida romântico.
Morte,
o que afinal há de tão sombrio em ti? Somente a vítima sabe que ela vem. No
instante final não vos engane, não vemos nossa vida passando como uma reprise
de final de ano, e não pensamos nos entes queridos que deixaremos. Não, leitor
ingênuo.
Pensamos
apenas nela, na inimiga. Engane-se leitor, ela não é um homem vestido num terno
preto. Enganai-vos, leitor. A morte vem na figura feminina mais bela já vista
em sua vida. A morte vem com a maior ternura do mundo e vos julga digno do
descanso eterno. Quando ela vem os céus a anunciam. A escuridão invade nossa
mente, os trovões tocam a música de despedida da vida. E ela
chega, envolta em seu vestido negro, em uma das mãos leva a foice para ceifar a
última gota de esperança que vos resta. Na outra leva uma rosa, ela vos
presenteia com a mais bela flor vinda das profundezas da perdição. É romântica,
sim. É romântica.
Não
se engane: ela é tímida, das mais tímidas que já vistes na vida. Ela vem e
começa o flerte. O último, leitor. Seus olhos são azuis. Azuis que hipnotizam
qualquer um. Do mais forte ao mais molenga dos homens. Sua pele é pálida, mas
de uma palidez divina. Quem sabe o que ela diz nesse momento? Ninguém voltou
para nos contar. Quem sabe recite um poema. Carlos Drummond de Andrade,
Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e tantos outros. As opções são inimagináveis.
Cativa
a vítima ao ponto de chama-la para dançar. E começa a última dança. Uma valsa
sombria da qual o final todos já sabem. Ela seduz com seu corpo esbelto. Corpo
de brasileira bem feita. Se Deus é brasileiro, a morte deva ser brasileira. Por
que não? Ela dança, a vítima a carrega em seus braços. Ali não existe a esposa,
a namorada, ou a ficante da vida terrena. Nada ali mais importa. A vítima já
esquece que vai para a eternidade. A morte, em sua ternura divina, o beija.
Do
beijo dado, ela toma seu último fôlego. Que bandida, seduz por tão pouco. Do
encontro entre as duas bocas, a vítima se desfaz em luz a caminho da
eternidade. A morte fica, mas que desfeita com aquele corpo belo. E se vai a
procura do próximo amante. Um pai de família, um padre, um pastor, um
solitário. Não importa quem, ela vem carente de carinho e de toque. A morte a
mais linda que virá para todos.
Por: Fellipe de Sousa Barreto
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