domingo, 19 de abril de 2015

O último suspiro



Quando meu último suspiro for dado, digam amigos, que enquanto perdia a consciência pensava nela, e somente nela. Aquela menina de tempos atrás, que amara tanto e fora a felicidade de minha vida, partiu sem despedir-se. Não houve adeus, isso foi o que doeu mais. Depois dela houve outras, mas não houve amor maior do que o que dediquei a ela. Ela, vagabunda, filha de uma vaca, a menina que tanto amei se fora.

Deixo registrado todo meu descontentamento com a vida. Caí desamparado em choro quando partira, chorei sem ganhar abraço. Abraço de ninguém. Como pôde fazer tamanho desfeito com quem teve tamanho amor? Saiu fugida, talvez era filha de bandido e eu não perguntei. Cansei de me perguntar o por que da partida. Posso ter errado em amá-la, mas era gostoso, o sentimento de amar vicia.

Que filha de uma vaca! Envelheci e tornei-me um velho, um velho rabugento. Vieram outras depois dela, outras mais bem feitas, bem definidas. Vieram as mulatas, as loiras e morenas. Porém, ela fora a única ruiva que aparecera em minha vida, as ruivas fazem o ato bem feito, mas fazem mal no dia seguinte. Nem todas devam ser assim, vagabundas e filhas de vacas, talvez fora a única.

Só eu sei como dói tamanha saudade, ah que estupidez fora amar-te! Agora já velho a única certeza  que tenho é que a morte vem, e vem logo. Estou doente, preso na cama, os amigos visitam e sentem pena. Pena de quem amou e foi humilhado, de quem a teve por apenas uma noite, e a amou por toda a vida. Não creio que possa lhe encontrar, e nada mais vos posso dar, a não ser esse sentimento que acompanhou-me por toda a vida, presente em meu último suspiro. Sua foto esta guardada na gaveta do criado-mudo, junto com as cartas de amor que sonhei entregar para ti. 

Por: Fellipe Barreto

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