quarta-feira, 22 de abril de 2015

O nordestino




Corajosos foram (e são) os nordestinos, isso não podemos negar. Sair da boa terra e vir para São Paulo fora um grande desafio. Porém, a dor e o sofrimento corroeram toda a felicidade da terra nordestina. Como pode haver tanta felicidade numa terra tão sofrida e seca?

Na despedida jurou que um dia voltaria, para casa nordestina, para mamãe e em especial, voltaria para ver Rosinha que tanto amava. Seguiu o caminha para a terra rica, São Paulo. Fora num caminhão velho, um verdadeiro pau de arara, rumo ao desenvolvimento e das oportunidades. Porém, durante o trajeto já começara a sentir aquela que passaria a ser sua melhor amiga e companheira, a saudade. Ah! Não nos esqueçamos da tristeza, ela é fundamental para quem vem tentar a sorte na terra paulista.

Assim que chegou arranjou um emprego. Achou um apartamento pequeno, mas que o protegia da garoa que caía naquela terra. Seus únicos bens eram o apartamento e a bicicleta, era muito humilde. Trabalhava muito no novo emprego, era trabalho duro pior do que a roça que capinava quando jovem, mas ganhava bem. E havia ainda os benefícios, não nos esqueçamos deles. Ao chegar em casa do serviço, ficava imaginando o que o povo de sua terra estariam fazendo. Ficava triste, sentia falta dos campos secos, sentia saudade de seu cavalo, saudade de Rosinha, saudade de mamãe. Sentia falta de ter com quem conversar.

Em São Paulo todos eram patrões, somente ele, o pobre nordestino era empregado. Entregava seu suor todo dia, ganhava o salário e pagava um bocado de contas, o pouco que sobrava mandava para mamãe. Trabalhou durante meses a fio, sem férias, sem descanso. Fez de tudo. Não possuía luxos, tinha apenas a casa simples, um fusquinha laranja e os discos de Luiz Gonzaga, este último era o único modo de sentir-se em casa, no nordeste agora tão distante. Sempre ao sair do serviço, lembrava-se da promessa que fizera na partida: um dia voltaria e passaria o resto de sua vida nos campos nordestinos que tanto amava.

Um dia como outro qualquer, fez tudo como sempre fizera, seguiu sua rotina. Levantou antes do sol nascer, fora na padaria do bairro tomar aquele café mal feito, pegou o ônibus (que sempre vinha lotado), chegou na firma onde todos eram patrões e trabalhou na linha de montagem. Montava produtos eletrônicos que nunca sonhara em comprá-los, mas sonhava no dia do retorno à terra nordestina. Porém, naquele dia de abril veio-lhe uma dor forte no peito sedentário, uma dor que o fez berrar e assustar os demais trabalhadores. Não pôde suportar, e lá se esvaíra o fôlego todo cheio de saudade do nordestino, e morreu. No meio de tantos patrões e nenhum amigo. A promessa nunca pôde cumprir, caiu sozinho e longe de seus queridos, longe de mamãe que tanto sentia falta de seu carinho, morreu buscando as oportunidades que nunca realmente vieram, mas que tanto continuou buscando, com tremenda saudade no peito nordestino. 

Por: Fellipe Barreto

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