“Hei
de amar, como nunca pude. Hei de viver, como jamais vivi. Hei de argumentar com
meus opositores, como jamais argumentei. Hei de lutar pelo poder conquistado,
como sempre tenho lutado. A vida de ditador um dia fora tão bela, hoje é só
tortura sem fim.
Tenho
forças ao meu lado. Tanques, armas e soldados. Porém confesso neste diário, que
a força de jazia em meu corpo tem diminuído a cada grito de ordem dado. Outrora
eu fora adorado, agora é só lamentação. Pela segurança de minha terra assumi a
chefia de uma revolução, e venci. Fui aclamado pelos senhores e senhoras.
Contam minha história para as crianças pequeninas nas escolas.
‘Quem
não for a favor desta revolução, eu bato e prendo’, disse eu certa vez. E como
bom ditador, cumpri minha palavra. Bati e prendi dezenas, milhares. Mas hoje
sinto uma dor. Não dói os braços e as pernas, não dói o coração. Dói minha
consciência. Quando menininho tive que pôr fim em meu pobre cachorrinho, pois
doente o bicho sofria.
Continuo
agora crescido abatendo sofredores. Tenho abatido inocentes, mães e pais, avós
e avôs. O sangue escorre pela minha farda. Não consigo suportar tamanha dor,
hei de por fim a tudo isso. Mas jamais renunciarei! Jamais, vos digo! Sou
ditador poderoso, chefe das forças armadas e destas terras férteis. Mas sou um
tirano, que não suporta mais ouvir os gritos dos inocentes. Darei fim a tudo
isso, não matarei nenhum pobre menininho ou menininha.”
Os
jornais anunciaram: “Suicidou-se o ditador! Suicidou-se o ditador!”. O povo
festejou como se não houvesse amanhã. Pais e mães, avós e avôs, menininhos e
menininhas, foram soltos. Fora o último pedido do tirano, o ditador. Festejaram
durante o velório, durante o enterro. Estavam todos livres, afinal. Até o
ditador, livre da tremenda dor na consciência, pelos atos que fizera durante a
vida.
Parte do texto foi retirado do "diário" do nosso querido ditador fictício.
Por: Fellipe de Sousa Barreto
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