Decidi escrever essas
linhas para ver se esqueço-me do vício. Vício que ganhei naquele dia que vi
você, linda subindo num ônibus lotado. Digo lotado em tom ríspido. Como pode
tamanha beleza fazer-se presente ali, logo a minha frente? Pensei quase bobo.
Confesso ao leitor que havia um sorriso em meu rosto, e um sujeito sonolento
roncando ao meu lado.
A beleza era tanta, que
até o motorista do veículo passou a vagar em velocidade reduzida por aquela estrada
sem fim. Um bebê de colo que vinha a chorar, calou-se ao perceber o azul
tremendo daqueles olhos a espiona-lo. As senhoras em assentos reservados,
faziam fuxico sobre o vestido que ela usava. Não era curto, nem longo, mas
provocante na medida certa. Era um corpo belo, belo de mulher brasileira.
Sua altura não incomoda em
nada. É baixinha, do tipo que ao falar minhas palavras ficarei sempre à luz dos
olhos teus. Assim que entrou, rodou a catraca e desfilou para perto da porta.
Puxa! Que perfume, leitor. Que perfume. Ficou próximo de mim, eu ali sentado,
com um trabalhador exausto do meu lado. Pensei em levantar-me e dar-lhe o
lugar. Ora! Mas que bobagem, o que vão pensar de mim. O que as senhoras nos
assentos reservados vão fuxicar? “Veja, que iludido o romântico humilde e bobo
da vida”, “que depravado!”, “que machista!”.
Louco me decidi: vou dar o
lugar. Afinal, não ei de negar meu cavalheirismo por motivos fúteis. Procurei a
moça, mas enquanto pensava em dar o lugar ela desceu no ponto seguinte. Fiquei
ali, paralisado. Deixei que a opinião das senhoras dos assentos reservados me
tomassem tempo. Quão bobo fui naquele momento? Não há no mundo forma para medir
tamanha bobagem. Só sei que desceu em tal ponto, que pegou tal ônibus, em tal
hora. Sigo no mesmo horário, no mesmo ônibus esperando para lhe dar o espaço
reservado em meu coração.
Por:
Fellipe de Sousa Barreto
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