sábado, 4 de abril de 2015

Desconhecida rotineira



Decidi escrever essas linhas para ver se esqueço-me do vício. Vício que ganhei naquele dia que vi você, linda subindo num ônibus lotado. Digo lotado em tom ríspido. Como pode tamanha beleza fazer-se presente ali, logo a minha frente? Pensei quase bobo. Confesso ao leitor que havia um sorriso em meu rosto, e um sujeito sonolento roncando ao meu lado.

A beleza era tanta, que até o motorista do veículo passou a vagar em velocidade reduzida por aquela estrada sem fim. Um bebê de colo que vinha a chorar, calou-se ao perceber o azul tremendo daqueles olhos a espiona-lo. As senhoras em assentos reservados, faziam fuxico sobre o vestido que ela usava. Não era curto, nem longo, mas provocante na medida certa. Era um corpo belo, belo de mulher brasileira.

Sua altura não incomoda em nada. É baixinha, do tipo que ao falar minhas palavras ficarei sempre à luz dos olhos teus. Assim que entrou, rodou a catraca e desfilou para perto da porta. Puxa! Que perfume, leitor. Que perfume. Ficou próximo de mim, eu ali sentado, com um trabalhador exausto do meu lado. Pensei em levantar-me e dar-lhe o lugar. Ora! Mas que bobagem, o que vão pensar de mim. O que as senhoras nos assentos reservados vão fuxicar? “Veja, que iludido o romântico humilde e bobo da vida”, “que depravado!”, “que machista!”.  

Louco me decidi: vou dar o lugar. Afinal, não ei de negar meu cavalheirismo por motivos fúteis. Procurei a moça, mas enquanto pensava em dar o lugar ela desceu no ponto seguinte. Fiquei ali, paralisado. Deixei que a opinião das senhoras dos assentos reservados me tomassem tempo. Quão bobo fui naquele momento? Não há no mundo forma para medir tamanha bobagem. Só sei que desceu em tal ponto, que pegou tal ônibus, em tal hora. Sigo no mesmo horário, no mesmo ônibus esperando para lhe dar o espaço reservado em meu coração.

Por: 
Fellipe de Sousa Barreto

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