domingo, 26 de abril de 2015

O ônibus



Uma lata metálica, com quatro rodas e um motor: o ônibus, tão presente em nosso cotidiano, urbano ou rural, passa despercebido e não recebe o crédito que lhe é devido por aqueles que o usam. O ônibus vai cheio de rotina e esperança. Carrega, em pé ou sentado em seus bancos, um pouquinho de todo canto da cidade. Ele da carona ao menino suburbano que vai cedinho para a escola. Ele, o velho ônibus de segue por décadas, leva a dona de casa de volta para a casa que volta do mercado. Leva, perceba leitor, a mesma dona de casa para a casa do amante. Leva de graça e com carinho os velhinhos, com tanta graça guardou para eles um assento especial e reservado.

Circula agora até a madrugada, segue exausto e soltando uma fumaça preta pelo escapamento. Na madrugada segue quase em marcha lenta, pois tem medo do que pode encontrar no próximo ponto. Durante a noite, onde os gatos vagabundos miam e brigam, ele leva gente do bem e do mal, leva os meninos do Capão Redondo para a balada na Rua Augusta, leva a dona prostituta para uma esquina qualquer, carrega os perdidos e os que se acham. O ônibus vê de tudo: briga entre casais, entre desconhecidos, idosos e jovens. Tudo isso num dia qualquer de abril, quem dirá em julho? Desconsidere o mês de julho, escrevi sem pensar. Mas pense no que ele vê durante os dias, meses e anos que continua rodando? Vou deixar você pensando por um instante.

Agora pense nisso. Deixamos de ver as coisas como deveriam ser vistas. Outro dia estava eu dentro do ônibus 7022, voltando para casa, e avistei uma criança na calçada perto do entulho, maravilhada pela grandiosidade daquele velho e despercebido ônibus. Velho, mas quase histórico e cheio de história. Quantos não foram carregados pelo ônibus que agora é figura tão fútil? Intelectuais, burros, ricos, pobres, velhos e novos. Na São Paulo de antigamente, antes dos Trens e Metrôs, o ônibus era o único meio público para locomoção. Somente no velho ônibus as pessoas seguiam seu caminho, e admiravam pela janela suja o esplendor da São Paulo de antigamente.

Hoje o ônibus segue quase como um maltrapilho, sempre na mesma rota, parado no trânsito caótico da cidade, sendo xingado, vandalizado, quase sem importância. Cobrando caro, sem ser renovado ou aposentado, roda por décadas a fio. Segue o mesmo caminho de seus antepassados, tossindo uma fumaça poluída, apenas sendo uma caixa metálica, com quatro rodas e um motor, que roda sem parar no ponto do tempo. 

Por: Fellipe Barreto

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