Uma
lata metálica, com quatro rodas e um motor: o ônibus, tão presente em nosso cotidiano, urbano ou rural, passa despercebido e não recebe o crédito que lhe é
devido por aqueles que o usam. O ônibus vai cheio de rotina e esperança. Carrega,
em pé ou sentado em seus bancos, um pouquinho de todo canto da cidade. Ele da
carona ao menino suburbano que vai cedinho para a escola. Ele, o velho ônibus
de segue por décadas, leva a dona de casa de volta para a casa que volta do
mercado. Leva, perceba leitor, a mesma dona de casa para a casa do amante. Leva
de graça e com carinho os velhinhos, com tanta graça guardou para eles um
assento especial e reservado.
Circula
agora até a madrugada, segue exausto e soltando uma fumaça preta pelo escapamento.
Na madrugada segue quase em marcha lenta, pois tem medo do que pode encontrar
no próximo ponto. Durante a noite, onde os gatos vagabundos miam e brigam, ele
leva gente do bem e do mal, leva os meninos do Capão Redondo para a balada na
Rua Augusta, leva a dona prostituta para uma esquina qualquer, carrega os
perdidos e os que se acham. O ônibus vê de tudo: briga entre casais, entre
desconhecidos, idosos e jovens. Tudo isso num dia qualquer de abril, quem dirá
em julho? Desconsidere o mês de julho, escrevi sem pensar. Mas pense no que ele
vê durante os dias, meses e anos que continua rodando? Vou deixar você pensando
por um instante.
Agora
pense nisso. Deixamos de ver as coisas como deveriam ser vistas. Outro dia
estava eu dentro do ônibus 7022, voltando para casa, e avistei uma criança na
calçada perto do entulho, maravilhada pela grandiosidade daquele velho e
despercebido ônibus. Velho, mas quase histórico e cheio de história. Quantos
não foram carregados pelo ônibus que agora é figura tão fútil? Intelectuais,
burros, ricos, pobres, velhos e novos. Na São Paulo de antigamente, antes dos
Trens e Metrôs, o ônibus era o único meio público para locomoção. Somente no
velho ônibus as pessoas seguiam seu caminho, e admiravam pela janela suja o esplendor da São Paulo de antigamente.
Hoje
o ônibus segue quase como um maltrapilho, sempre na mesma rota, parado no
trânsito caótico da cidade, sendo xingado, vandalizado, quase sem importância.
Cobrando caro, sem ser renovado ou aposentado, roda por décadas a fio. Segue o
mesmo caminho de seus antepassados, tossindo uma fumaça poluída,
apenas sendo uma caixa metálica, com quatro rodas e um motor, que roda sem
parar no ponto do tempo.
Por: Fellipe Barreto
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