domingo, 12 de abril de 2015

Deus não protege os bastardos



Deus não protege os bastardos, foi isso que aprendi desde novo. De criança, tenho apenas lembranças de minha mãe sendo espancada pelo meu pai, sem muito poder fazer, pois apenas com a pensão miserável que ele ganhava junto ao salário dela, ela nunca poderia dar uma vida digna ou uma melhor oportunidade aos seus filhos. Amor, talvez esse seja a melhor forma de resumir minha mãe, independente das vezes em que ela me deu uma surra bem dada – admito, em muitas delas mereci mesmo. Engraçado, o amor as vezes é um sentimento confuso, tentamos proteger tanto àquele que amamos, que nos tornamos quase possessivos. Acredito que talvez toda (boa) mãe cometa esse pequeno erro, a possessividade sobre seus filhos. 
Quando mais velhos, entendemos que ela apenas tinha medo de que nos machucássemos. Em minha adolescência gostava de dizer à minha mãe: “Relaxa minha velha, é caindo que aprendemos a nos levantar”. Como eu era otário em pensar isso, não digo que essa frase não possua sentido ou esteja errada, o que quero dizer é que na verdade, em muitas das vezes em que cai, foi ela que me levantou, e tenho certeza de que isso aconteceu convosco também, querido leitor. Gozado, se pensarmos bem, ela nos levanta até o seu último segundo, até em seu leito de morte ela irá nos pedir “Não chore, tudo vai ficar bem”. Para falar a verdade, conhecendo bem a minha mãe em particular, talvez ela peça para que seja feita uma festa em comemoração à sua morte, simplesmente porque ela odeia ver as pessoas tristes.
Deus não protege os bastardos, disso eu tenho certeza, mas sei que ele protege suas mães, para que essas possam proteger suas crias. Por mais que eu, mero mortal, não possua fé, peço a Deus ou a entidade suprema responsável por esse departamento: Proteja minha velha, ainda preciso de alguém para me ensinar a levantar quando eu cair, pois ainda não estou pronto para fazer isso sozinho.

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